queria poder entrar na tua vida, poder ser teu sonho. queria ter contigo um amor tão real e verdadeiro quanto o mundo e as pessoas, mas com um sopro de pureza que nos afastasse dos outros; seríamos o equilíbrio entre o peso e a leveza.
poder te beijar numa tempestade, dentro de uma casinha de madeira, é claro, enquanto relâmpagos se rebelavam janela afora e a chuva caía com força tentando lavar a alma das pessoas, a cidade, os amores, os carros. deixa eu te tocar o coração e chorar por cima dele os erros que eu derramei nos outros. deixa eu me abrigar nos teus braços, dormir no silêncio e no calor do teu corpo enquanto seguro as tuas mãos. eu as apertaria tão forte, pra que você nunca mais fosse embora. nunca mais fosse embora…

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Naquele dia, demorei a abrir os olhos. Não queria. Quando finalmente o fiz, me senti estranha… tudo estava estranho, diferente, triste. Os raios de sol que invadiam o quarto, o canto dos pássaros invisíveis, a brisa que entrava passeando pela janela… tudo era melancólico.
Levantei sem vontade de levantar. No espelho retangular, meus olhos me fitavam, cansados. Se eu pudesse escolher, não diria nada naquele dia.
Arrastei os olhos até a janela. O céu estava bonito, azul, indiferente a tudo. Grandes nuvens brancas manchavam a imensidão azulada. O sol brilhava, grandioso.
Mas naquele dia, era diferente. Tudo aquilo me dava um grande aperto no peito e uma vontade de chorar.
O mundo não se importava com o meu sofrimento. As pessoas continuavam a caminhar pela calçada, o sol ainda brilhava, as flores ainda exalavam seus perfumes. Podia ouvir do quarto os gritos divertidos das crianças que corriam, suadas, pelas ruas.
Afastei o olhar da janela, me encontrando novamente no espelho. Eu era quase irreconhecível. Tentei sorrir, fracassando.

Desci as escadas em passos lentos, não me preocupando em chegar a lugar algum. Eu não tinha pressa. A vida havia perdido o sentido. Me sentia cansada, a cabeça doía… parecia ressaca, mas não era. Meus pés me guiavam pela sala, solitária e vazia. Ninguém em casa.
Ninguém em lugar nenhum.

Solitária e vazia.

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Não 

    Não, não é cansaço… 
    É uma quantidade de desilusão  
    Que se me entranha na espécie de pensar,  
    E um domingo às avessas 
    Do sentimento, 
    Um feriado passado no abismo…      Não, cansaço não é… 
    É eu estar existindo 
    E também o mundo, 
    Com tudo aquilo que contém, 
    Como tudo aquilo que nele se desdobra 
    E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

    Não.  Cansaço por quê? 
    É uma sensação abstrata 
    Da vida concreta — 
    Qualquer coisa como um grito  
    Por dar, 
    Qualquer coisa como uma angústia  
    Por sofrer, 
    Ou por sofrer completamente,  
    Ou por sofrer como… 
    Sim, ou por sofrer como… 
    Isso mesmo, como… 

    Como quê?… 
    Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

Álvaro de Campos

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O Sono

 

    O sono que desce sobre mim,                            
    O sono mental que desce fisicamente sobre mim, 
    O sono universal que desce individualmente sobre mim — 
    Esse sono 
    Parecerá aos outros o sono de dormir, 
    O sono da vontade de dormir, 
    O sono de ser sono.     Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:  
    E o sono da soma de todas as desilusões,  
    É o sono da síntese de todas as desesperanças,  
    É o sono de haver mundo comigo lá dentro  
    Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. 

    O sono que desce sobre mim 
    É contudo como todos os sonos. 
    O cansaço tem ao menos brandura, 
    O abatimento tem ao menos sossego, 
    A rendição é ao menos o fim do esforço, 
    O fim é ao menos o já não haver que esperar. 

    Há um som de abrir uma janela, 
    Viro indiferente a cabeça para a esquerda 
    Por sobre o ombro que a sente, 
    Olho pela janela entreaberta: 
    A rapariga do segundo andar de defronte 
    Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. 
    De quem?, 
    Pergunta a minha indiferença. 
    E tudo isso é sono. 

    Meu Deus, tanto sono!  …

Álvaro de Campos

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melhor matar do que ver morrer aos poucos.

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o horizonte da minha alma…

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o tudo é muita coisa,
nada também é.

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