poder te beijar numa tempestade, dentro de uma casinha de madeira, é claro, enquanto relâmpagos se rebelavam janela afora e a chuva caía com força tentando lavar a alma das pessoas, a cidade, os amores, os carros. deixa eu te tocar o coração e chorar por cima dele os erros que eu derramei nos outros. deixa eu me abrigar nos teus braços, dormir no silêncio e no calor do teu corpo enquanto seguro as tuas mãos. eu as apertaria tão forte, pra que você nunca mais fosse embora. nunca mais fosse embora…
Dezembro 22, 2008
poder te beijar numa tempestade, dentro de uma casinha de madeira, é claro, enquanto relâmpagos se rebelavam janela afora e a chuva caía com força tentando lavar a alma das pessoas, a cidade, os amores, os carros. deixa eu te tocar o coração e chorar por cima dele os erros que eu derramei nos outros. deixa eu me abrigar nos teus braços, dormir no silêncio e no calor do teu corpo enquanto seguro as tuas mãos. eu as apertaria tão forte, pra que você nunca mais fosse embora. nunca mais fosse embora…
Dezembro 9, 2008
Naquele dia, demorei a abrir os olhos. Não queria. Quando finalmente o fiz, me senti estranha… tudo estava estranho, diferente, triste. Os raios de sol que invadiam o quarto, o canto dos pássaros invisíveis, a brisa que entrava passeando pela janela… tudo era melancólico.
Levantei sem vontade de levantar. No espelho retangular, meus olhos me fitavam, cansados. Se eu pudesse escolher, não diria nada naquele dia.
Arrastei os olhos até a janela. O céu estava bonito, azul, indiferente a tudo. Grandes nuvens brancas manchavam a imensidão azulada. O sol brilhava, grandioso.
Mas naquele dia, era diferente. Tudo aquilo me dava um grande aperto no peito e uma vontade de chorar.
O mundo não se importava com o meu sofrimento. As pessoas continuavam a caminhar pela calçada, o sol ainda brilhava, as flores ainda exalavam seus perfumes. Podia ouvir do quarto os gritos divertidos das crianças que corriam, suadas, pelas ruas.
Afastei o olhar da janela, me encontrando novamente no espelho. Eu era quase irreconhecível. Tentei sorrir, fracassando.
Desci as escadas em passos lentos, não me preocupando em chegar a lugar algum. Eu não tinha pressa. A vida havia perdido o sentido. Me sentia cansada, a cabeça doía… parecia ressaca, mas não era. Meus pés me guiavam pela sala, solitária e vazia. Ninguém em casa.
Ninguém em lugar nenhum.
Solitária e vazia.
Novembro 24, 2008
Não
| Não, não é cansaço… É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, E um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo… Não, cansaço não é… É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Como tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. Não. Cansaço por quê? Como quê?… |
Álvaro de Campos
Novembro 24, 2008
O Sono
| O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim — Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: E o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. O sono que desce sobre mim Há um som de abrir uma janela, Meu Deus, tanto sono! … |
Álvaro de Campos
Outubro 29, 2008
apontador
apontador.
aponta dor.
aponta a dor.
a dor aponta.
ponta dor.
ponta da dor.
aponta a ponta
aponta a ponta da dor.
Outubro 26, 2008
q
O mar
calou
O sol
falhou
O céu
Se abriu
A dor
Sorriu
E escureceu.
Ouviu-se ecoar no ar.
O grito de silêncio
E ao meio ouviu-se o mundo rasgar-se
Num furacão de pensamentos
Escuridão batendo
No coração de cada um
Gente cansada, com mãos e braços
Implorava por ar,
Já sem vida, sedentos
Ficavam todos a [em vão] se desesperar
O espaço cortante
O vazio a gritar
Sofrimento
Enquanto, em cada janela
Ficava um pássaro a cantar
E em cada quarto,
Uma moça a dançar
Um garoto a masturbar.
Pois um prazer [curto que seja]
Cada um devia ter!
Porque o mundo ia acabar.
Todo mundo ia morrer…
E o desenhista desenhou
O esquecido destraiu-se
A cozinheira cozinhou
Quem sentiu frio, cobriu-se
E despiu-se quem sentiu calor
e o que não falava, gritou
quem demasiadamente falava, silenciou
Chorou quem sentiu medo
e quem não sentiu, também chorou
abraçaram-se os namorados
e os amantes fizeram amor
mataram-se os assassinos
e o maníaco se torturou
e de repente, veio um frio
que o mundo inteiro congelou
esse era o fim, afinal
e todo mundo acordou
a vida havia começado,
foi só o mundo que acabou…